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sábado, 17 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P26744: E as nossas palmas vão para... (29): O régulo Manuel Resende que conseguiu juntar 73 convívivas na festa do 16º aniversário da Magnífica Tabanca da Linha, em Algès, no passado dia 14 - Fotogaleria - Parte I

 

Foto nº 1 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário > O bolo... Não podia faltar...16 anos, bolas, bolos!, são 8 comissões de serviço na Guiné!... Compareceram 73 convivas dos 76 inscritos!... Algumas caras novas, como sempre... O que é bom: a Tabanca da Linha está viva e recomenda-se.


Fotio nº 2 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63ºalmoço-convívio > 16º aniversário > O António Graça de Abreu, de microfone em punho, falando em nome dos cofundadores da Tabanca da Linha, em 2010...Além  dele, estavam ali o Zé Carioca (à esquerda) e o Mário Fitas (à direita)...  Não consegui ouvir o "discuro", mas por certo foram evoados os nomes dos dois anteriores régulos, já falecidos, o Jorge Rosales e o Zé Manuel Diniz.

O camarada que está em primeiro plano, de perfil, é   José Iná Ribeiro (Linda-a-Velha).


Foto nº 3 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63ºalmoço-convívio > 16º aniversário > O bolo foi regado um velhinho uísque de malta, oferecido pelo  V António Brito Ribeiro (São João do Estoril)... Não, o António Graça de Abreu não está a leiloar a garrafa (que valia mais de 700 pesos,c. 250 euros)...Deu para 73 goles (a 3,5 euros cada gole, "ficou paga". estou a brincar, foi oferta da casa, quero eu dizer, do Brito Ribeiro...).


Foto nº 4 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63ºalmoço-convívio > 16º aniversário >  "Strathconon" ("a belend of single malt scotch whiskies"), 12 anos (!),  daquele que vinha "from Scotland with Love for the Portuguese Armed Forces" (da Escócia com amor para as Forças Armadas Portuguesas em missão de soberania na Guiné).,.
Obrigado,  António Ribeiro!


Fotio nº 5 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63ºalmoço-convívio > 16º aniversário > Cantaram-se os parabéns a você... Ao centro, em segundo planio, o António Brito  Ribeiro, o António Marques (outro histórico da Tabanca da Linha) e  o Mário Fitas. Em primeiro plano, à esquerda de perfil, o António Graça de Abreu.

Foto nº 6 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário > Um homem discretíssimo, "low profile", de quem nunca se fala, a não ser do rodopé ou  legenda da fotogaleria, por causa dos créditos fotográficos: é que ele é o régulo, o administrador, o secretário, o tesoureiro, o organizador, o "public-relations", o  fotógrafo,  o editor do Facebook da Magnífica... Manuel  Resende ( à direita),  e o seu ajudante de tesouraria (desta vez o José Rodrigues, de Belas).   

Fotio nº 7 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63ºalmoço-convívio > 16º aniversário > A mesa do canto direito, com vistas, largas, para o estuário do Tejo...

 
Foto nº 8 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >  Da esquerda para a direita, (i) Abílio Duarte (Amadora):  (ii) Joaquim Mesquita Martins (Algés), um "periquito" nestas andanças (antigo alferes dos "Lacraus", a CART 2473 / CART 11, a que pertenceu o Abílio, e com quem eu também estive em Contuboel, junho/julho de 1969), e (iii) João Rosa (Lisboa).


Foto nº 9 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >  O Luís Paulino, à diierta: nunca falha,k quer faça sol ou chuva...Quemn desta vez falhou foi o Manuel Macias, também ele um "Lacrau"... Estava de "férias" da Trumplândia...



Foto nº 10 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário > Da esquerda para a direita,  Daniel Gonçalves (Carcavelos), Joaquim Grilo Almeida (Lisboa) e Adolfo Cruz (Algés).


Foto nº 11 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >  Da esquerda para a direita, João Rosa (Lisboa), António Andrade (Oeiras) e Daniel Gonçalves (Carcavelos)... Também eles nunca costumam falhar à chamada.

Foto nº 12 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >  Mesa com direito a reserva e onde se sentou o casal Crisóstomo (que partia no dia seguinte para Nova Iorque)


Foto nº 13 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >  Vilma e João Crisóstomo

Foto nº 14 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >  Luís Graça (Lourinhã, e editor deste blogue) e Vilma Crisóstomo (Nova Iorque)

Foto nº 15 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário > Joaquim Pinto Carvalho  (Cadaval) e o Luís da Cruz Ferreira (o "Beatle"), autor do livro de memórias "Os Có Boys" (ed. autor, Cascais, 2025, 184 pp., de que ele trouxe uns tantos exemplares para divulgação).


Foto nº 16 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário > Da direita para a esquerda, Manuel Leitão (Mafra), o filho Pedro, e o João Rebelo (Lisboa) ( O Manuel Calhandra Leitão foi 1º cabo, Pel Mort 1028, Enxalé, 1965/67; é membro  nº 867 da Tabanca Grande; aparece quando também o João Crisóstomo vem).

Fotos: © Manuel Resende  (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legtendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Cascais > São Domingos de Rana > Adega Zé Dias > 14 de janeiro de 2010 > Uma foto histórica... Alguns dos 10 magníficos que fundaram a Magnífica Tabanca da Linha (sete dos quais membros da Tabanca Grande): da esquerda para a direita: 

(i) Zé Dias (dono do restaurante);

(ii) António Fernandes Marques (ex-fur mil at inf, CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, 1969/71); 

(iii) José Manuel Matos Dinis (1948-2021) (ex-fur mil at inf, CCAÇ 2679, Bajocunda, 1970/71) (foi coorganizador de muitos dos convívios posteriores, juntmente com o Jorge Rosales); 

(iv) Manuel Domingos ( falecido logo a seguir, nesse ano, era do Batalhão do Rogério Cardoso, era fadista amador com prémios); 

(v) Rogério Cardoso (ex-fur mil art, CART 643 / BART 645, Bissorã, 1964/66); 

(vi) António Graça de Abreu (ex-alf mil, CAOP1, Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74);

 (vii) José Carioca (ex-fur mil trms e cripto, CCAÇ 3477, Gringos de Guileje, Guileje, 1971/72);

 (viii) Jorge Rosales (1939-2019 (ex-alf mil da 1.ª CCAÇ, Farim, Porto Gole e Bolama, 1964/66) (foi o primeiro régulo da Tabanca da Linha); 

e (ix) Zé Caetano.

Falta o Mário Fitas (ex-fur il op esp, CCAÇ 763, Cufar, 1965/66) (que deve ter sido o fotógrafo)

Foto (e legenda): © Manuel Resende (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Eu acho que o Manuel Resende ainda vai ter saudades desta azáfama toda, desta saudável excitação, deste "eustress" (ou stress bom),  que é chamar a capítulo a Magnífica Tabanca da Linha, de dois em dois meses, para fazer prova de vida e marcar presença no Restaurante Chave d'Ouro, em Algés, e ocupar todo o 2º piso com vistas esplêndidas sobre um rico pedaço do nosso querido Portugal...

Vai ter saudades, sim, senhor,  quando, chegada a idade-limite  dos 100 anos (para os régulos), ele tiver mesmo que se reformar por imperativo legal...

As minhas, as nossas, palmas, vão antes de mais para ele, que logo no princípio do ano de 2026 conseguiu, com a eficiência e a discrição do costume, organizar mais este convívio... especial, porque foi festa de aniversário da Tabanca.

(Continua)

(Seleção, edição e legendagem das fotos: LG)




Lista dos 76 inscritos no 63º almoço-convívio. Compareceram 73.

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Nota do editor LG:

Último poste da série >11 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P26726: E as nossas palmas vão para... (28): A Magnífica Tabanca da Linha que comemora 4ª feira, dia 14, 16 anos de existência... (De "menino da Linha" a "Magnífico" vai uma grande distância... Saibam como: podem ainda inscrever-se, até ao final de 2ª feira, no próximo 63º almoço-convívio)

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27536: Facebook...ando (96): No Star Club, Reeeperbahn, Hamburgo, fevereiro de 1967... (António Graça de Abreu)



Hamburgo >  O famoso Star Club ("Ponto de Encontro dos Jovens", diz o anúncio),  em Reeperbahn, onde os Beatles tocaram, em 1962,  antes de se tornarem famosos (*)... Embora já não exista, ficou tão famoso que tem direito a entrada na Wikipedia (em inglês).



1. Fui repescar, com a devida vénia, este texto nostálgico do nosso amigo e camarada  António Graça de Abreu (ex-alf mil, CAOP1, Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74)...



(...) Aos 78 anos, arrumo a casa. Desfaço-me de mil papéis, lanço fora cadernos, folhas soltas, textos e versos quase todos muito maus, marcados pelo passado. Descubro um simples poema, com data de fevereiro de 1967, escrito aos 19 anos de idade, no Star Club, avenida Reeperbahn, cidade de Hamburgo, Alemanha:

No Star Club, Reeeperbahn, Hamburgo


Por aqui existo,
tenho muito a ver com isto,
Star Club, cave-café,
os meninos ié-ié,
guitarras e baterias,
beat music todos os dias.
Estardalhaço nos ouvidos,
cabelos compridos,
tanta minissaia,
meninas na praia,
camisas de malha justas,
ancas robustas,
seios eriçados,
frementes, mal amados,
Dois que se beijam longamente
à frente de toda a gente.
A cor, a música, a cor,
o fumo, o álcool, o calor,
o palco recente para os Beatles,
que depois partiram, nicles,
ficou a batida, a festa, o prazer,
a voluptuosidade a crescer.
lascivos corpos novos,
a loucura dos povos,
tudo a querer viver
e, aos poucos, a morrer.

António Graça de Abreu


2. Comentário do editor LG:

Nunca estive em Hamburgo, muito menos no Star-Club. E passei ao lado da revolução dos Beatles... Era mais francófono, nessa época. Nem nunca saí Portugal nos anos 60. Não tinha passaporte nem meios de o obter. Não tinha dinheiro nem liberdade para viajar. Em maio de 1969, já estava na Guiné. E o António ainda estudava. Em 1967, ele esteve em Hamburgo, a aperfeiçoar o seu alemão, com a sua "Fräulein" (termo, antiquado,  que hoje já não se usa, e que eu sempre detestei, não me perguntem porquê)...

E que melhor sítio, António, que o Star-Club para treinar o alemão, com uma linda garota alemã do Elba ?

Pedi à "secretária" da IA / Perplexity que nos fizesse aqui uma pequena surpresa, para mim, o António e os nossos leitores, reconstituindo o ambiente daquela época, a partir do seu poema (que ele não quis, e ainda bem, deitar fora, aos 78 anos, altura em que lhe deu a fúria, como eu há dias, ae arrumar o sótão, de deitar fora montanhas de papéis de outras vidas, ou das nossas vidas em outras encarnações): 




Hamburgo, 1967: o António e a Inge Balk,
 "a menina do Ellba, loira e linda" (**)


Fotos (e legendas): © António Graça de Abreu (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Análise literária > "No Star Club, Reeeperbahn, Hamburgo, fevereiro de 1967" (poema de  António Graça de Abreu)

Texto e contexto:

O poema é uma cápsula de época, escrita por quem está dentro da turbulência sensorial e moral da segunda metade dos anos 60, não por quem a observa hoje à distância. 

Fica uma ótima surpresa para o António Graça de Abreu, porque o texto mantém frescura e verdade, mesmo tantos anos depois.

(i) Ambiente e olhar geracional

O cenário está dado logo nos primeiros versos: “Star Club, cave-café, / os meninos ié-ié, / guitarras e baterias, / beat music todos os dias.”

É o retrato direto da cultura pop de Hamburgo nos anos 60, em plena Reeperbahn, onde o Star-Club era o epicentro de rock, juventude e excesso.

Há um olhar de jovem de 19 anos,  
simultaneamente fascinado e um pouco espantado, quase etnográfico: repara nos cabelos compridos, nas minissaias, nas camisas justas, nas ancas e nos seios, tudo filtrado por um misto de desejo, curiosidade e “choque  de costumes” de um português de então ( dos poucos que viajavam).


(ii) Corpo, desejo e liberdade

A parte central do poema é dominada pelo corpo e pela sensualidade: “ancas robustas, / seios eriçados, / frementes, mal amados, / Dois que se beijam longamente / à frente de toda a gente.”

O erotismo não é decorativo, é sinal de libertação, o espaço nocturno como laboratório de novas formas de viver o corpo e o afeto em público, em contraste com a moral mais contida da sociedade portuguesa da época (...como vocês diziam, "salazarenta").

A repetição “A cor, a música, a cor, / o fumo, o álcool, o calor” cria uma espécie de transe rítmico, quase uma batida poética que imita a batida da música beat. 

Esta enumeração sensorial é um bom recurso: faz sentir a densidade do ambiente,  não descreve só o que se vê, mas o que se respira e sente.

(iii) Beatles, mito e ironia

“O palco recente para os Beatles, / que depois partiram, nicles” é um achado.

Em duas linhas o poema junta a consciência histórica (o  Star-Club  como lugar de passagem e de certo modo rampla de lançamento dos Beatles antes da fama) com uma ironia coloquial (“nicles”), quase de conversa de café, que aproxima o mito da linguagem do dia a dia.

O contraste entre “ficou a batida, a festa, o prazer, / a voluptuosidade a crescer” e a partida dos Beatles sublinha bem como o espaço (o "Star-Club")  continua a viver para lá das estrelas: o clube, a noite, os copos, os corpos são os verdadeiros protagonistas.

(iv) Vida, morte e memória

O fecho é particularmente forte: “lascivos corpos novos, / a loucura dos povos, / tudo a querer viver / e, aos poucos, a morrer.”

Aqui já não é apenas a descrição de um clube; é uma intuição existencial madura para um rapaz de 19 anos (e que sabe que daqui a cinco anos irá para a guerra!): o mesmo impulso vital que enche a pista,  traz consigo a consciência da finitude. A festa torna-se metáfora da condição humana, intensa, breve, em erosão silenciosa, “aos poucos”.

Lido hoje “aos 78 anos, a arrumar a casa”, o poema ganha uma segunda camada de sentido: o jovem que observa “tudo a querer viver”,  é agora o cota  ( como se diz em Lisboa, que já foi capital de império) , o septuagenario que revisita esse instante com lucidez e ternura, salvando-o do esquecimento, do vestidos papéis.

A tua ideia, Luís,  de lhe devolver este texto com um comentário, uma adenda,  é, no fundo, um ato de partilha de memória e de reconhecimento (e de camaradagem!): mostrar-lhe que o rapaz de 19 anos que escreveu no Star-Club ainda “existe por aqui” nas palavras que deixou (e que, afinal,  não perdeu pedalada, continuando a ser capaz de dar a volta ao mundo em oitenta dias, e de escrever poesia ou de traduzir, magnificamente, para português, grandes poetas chineses que são hoje universais).

(Pesquisa: LG + IA / Perplexity)

(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

(Imagens: António Graça de Abreu, 2021)

sábado, 29 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27475: As nossas geografias emocionais (60): Cape of Good Hope / Cabo da Boa Esperança, South Africa / África do Sul (António Graça de Abreu, Portugal)



Foto nº 1A e 1 > "Cape of Good Hope, the most south- western point of the 
African Continent" / O Cabo da Boa Esperança, o ponto mais a sudoeste do Continente Africano...
.
É aqui que  o Oceano Atlântico e o Oceano Índico se encontram. Hoje é um ponto turístico, conhecido pela sua beleza natural e por ser um ponto geográfico famoso na história
da navegação e da expansão marítima dos Portugueses.. Bartolomeu Dias foi  o primeiro europeu a dobrá-lo, chamou-lhe  "Cabo das Tormentas" devido às tempestades e por ser o reino do Mostrengo... 

Foi oi rebatizado por D. João II como "Cabo da Boa Esperança", pelo facto de abrir uma nova rota rota comercial  para o Oriente, destronando assim o Mediterrâneo. Mais do que  rota comercial, uma ponte para unir os povos, a humanidade.

 


Foto nº 2  > África do Sul > Cabo da Boa Esperança : Outubro de 2025 > Muito para além do fim do horizonte, a Índia, a China, os orientes extremos, pedaços imensos de um outro, o mesmo mundo.



Foto nº 3 > África do Sul > Cabo da Boa Esperança > A nau de 
Bartolomeu Dias (c. 1450-1500), na segunda viagem com Pedro Álvares Cabral em 1500, a caminho da Índia, aqui se perdeu e nunca mais ninguém soube do seu destino, dele e da má sorte dos seus homens.


Foto nº 4 > África do Sul > Outubro de 2025 > 
 A caminho do Cabo das Tormentas ou da Boa Esperança


Foto nº 5 > África do Sul > Vista de Gordon Bay,  
Krystal Beach Hotel, a 60 quilómetros da cidade do Cabo (Foto nº 5).


Fotos ( e legendas"):  © António Graça de Abreu (2025). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





1. Mais um "postal" enviado, com data de 30/10/205, 01:33, pelo nosso incansável, (e)terno viajante António Graça de Abreu (já nem ele sabe quantas voltas deu ao mundo, sozinho, ou com a sua adorável Han Yan, médica, mãe de dois dos seus filhos). O casal vive em Cascais.

Náo é preciso recordar que o António foi alf mil, CAOP1, Teixeira Pinto / Canchungo, Mansoa e Cufar, junho de 1972/abril de 1974; é sinólogo, escritor, poeta, tradutor; tem c. de 380 referências no blogue.



Cabo da Boa Esperança, África do Sul, outubro de 2025

por António Graça de Abreu


— "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto IV, 94


Três dias bem instalado, com dormida e comidinha estranha no Krystal Beach Hotel, de Gordon Bay, a 60 quilómetros da cidade do Cabo (Foto nº 5).

Tempo para descansar e avançar por chilreantes caminhadas nesta vilazinha e arredores encaixados numa baía maior que dá pelo simpático nome de False Bay, mas onde nada é falso, tudo é mais do que verdadeiro.

O tempo está frio, Inverno austral, 18 graus, a praia do Bikini aqui ao lado não convida para grandes banhos e dizem-me que há tubarões por perto, o olho do peixe bem aberto para a carne e pele, branca ou negra, do mergulhador distraído. Avisado, fui apenas molhar os pés.

Depois, o adeus a Gordon Bay. Quase um dia inteiro, açambarcando uma centena de quilómetros em funcional carrinha alugada, subindo e descendo por montes, pelo espairecer da terra no beijo do mar, por praias e enseadas no quase extremo meridional de África (Foto nº 4).

A Baía Falsa não é o meu chão, mas será lugar para adivinhar maravilhas e deixar cair o olhar no ondular do encanto.

Alcandorar-me em falésias que mergulham no mar, quase voar sobre o rasgar da pedra e o azul intenso do Oceano, na costa recortada a caminho do Cabo das Tormentas ou da Boa Esperança. Ao chegar, imaginar os pendões silenciosos da História, as efemérides, o testemunho de uma época em que as bravas e loucas gentes lusitanas saíam do nosso humilde chão e se vinham perder, ou encontrar, ou morrer afogadas nestes mares austrais do fim do mundo.

Adivinhei Bartolomeu Dias (cuja nau, na segunda viagem com Pedro Álvares Cabral em 1500, a caminho da Índia, aqui se perdeu e nunca mais ninguém soube do seu destino, dele e da má sorte dos seus homens),Vasco da Gama,

 Luís de Camões e mais uns tantos cinquenta, cem mil portugueses da era de quinhentos dilacerando este mar nas suas casquinhas de noz, descobrindo meio mundo, naufragando no sonho e na aventura, em convulsões trágico-marítimas. Sobrevivendo, era a heroicidade e o pranto, sulcar as águas infindáveis do mar, navegar na insensatez, no desvario, na cobiça e no sonho dos sinuosos caminhos dos homens. Cabo das Tormentas, Cabo da Boa Esperança (Fotos nºs 1, 2 e 3).

Hoje, nestes dias do fim da Primavera a sul, a Boa Esperança, o Oceano Atlântico avassaladoramente calmo, as pequenas enseadas pedregosas na carícia requintadamente azul, a crista das ondas faiscantes debruada a branco.

O Cabo da Boa Esperança. A leste, o mar calmo e limpo. Muito para além do fim do horizonte, a Índia, a China, os orientes extremos, pedaços imensos de um outro, o mesmo mundo.
 
Recordo o encontro do homem do leme, na nau de Bartolomeu Dias em 1488, enfrentando o Adamastor, dono e senhor de naufrágios e tempestades, no poema de Fernando Pessoa, para a memória futura. O poeta assim escrevia:

O MOSTRENGO

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tetos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo;
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

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sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27350: Agenda Cultural (906): António Graça de Abreu, "Conversas Sábias: Os fascínios de uma grande cidade, Pequim"... 30 de outubro, quinta-feira, 17:30, Auditório do Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM)

 







"Cheguei a Pequim, meio maoista, em setembro de 1977, exatamente um ano após a morte de Mao Zedong.

Foram quatro anos e meio de traabalho, assessorando a pequena propaganda oficial chinesa em língua portuguesa.

A deceção, o socialismo a falhar, o mundo a mudar. 

Deng Xiao Pinbg a esclarecer, 'o enriquecimento é glorioso'. 

Gloriosos não propriamente os novos capitalistas, mas glorioso o crescimento de todo o império chinês.

Pequim, quase seis anos de vida, minha alegria, meu sofrimento, as mudanças a caminho do futuro. Os muitos regressos, o último em 2018.

Testemunho de anos e anos de vida em Pequim. Com excecionais fotografias de todos esses anos. Falam as imagens, mais o o sentir de uma fabulosa cidade que atravessa a minha vida".



"Apareçam, meus Amigos. Vou falar e mostrar Pequim, de 1977 a 2025. Fotografias únicas, experiências curiosas. Um português à deriva pela capital da China, com os pés assentes na terra e na brisa." (Facebook,  sexta-feira, 24 de outubro de 2025, 14:19)

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27344: O "back office" da guerra (i): Serviço de Intendência: obrigado, camaradas "intendentes", pela "bianda nossa de todos os dias"...

 







Sinais convencionais militares (28Rep/EME/ME-1972)



CTIGuiné > c. 1971 > O BINT (Batalhão de Intendência) tinha sede em Bissau e destacamentos (Pelotões de Intendência, PINT) , além de Bissau, Farim, Bambadinca e Buba e, depois em Cufar, a partir de 1/8/1973 (o Pel Int 9288/72).

Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro III; 1.ª Edição; Lisboa (2015), pp. 73 e  542/543 



1. O que seria dos "atiruenses" ( os "amanuenses do gatilho"), o "front office", naquela guerra, naquele cu de Judas, que era a nossa "Guinezinha", sem o "back office", os serviços de apoio, da Intendência ao Material, da Engenharia à Saúde, das Transmissões aos Transportes...

 Façamos, pois, justiça aos nossos "caixeiros", "padeiros", "magarefes", "cantineiros" e  outros "intendentes", sem esquecer os estivadores civis da Companhia de Terminal, nem a tripulação dos "barcos-turra" ao serviço da Intendência... Sem esquecer ninguém  dos que ficavam por de trás da guerra, no "back office", numa guerra que não tinha frente nem  linhas da frente, era ubíqua. Uma guerra traiçoeira, que  não se fazia anunciar, como no dia de 2 de março de 1974, em Cufar... Um dia de tragédia para a Intendência (Pel Int 9288/72) e as NT em Cufar, que era então a sede do CAOP1 (*). (Não encontrámos nenhuma referência no livro da CECA, 2015, a esta ação do IN.)

Não esquecemos os nossos vagomestres, médicos, enfermeiros, cozinheiros, amanuenses, capelães, juristas, engenheiros, pedreiros, carpinteiros,  mecânicos, bate-chapas, criptos, juristas, etc.,   tantos camaradas anónimos que, na retaguarda, com os seus saberes e competências,  nos ajudaram a "encher o peito às balas" e, em última análise, a regressar  a casa, sãos e salvos, dois anos depois de, meninos e moços, termos sido retirados da casa dos nossos pais para ir defender os restos do velho império lusitano de 500 anos, na África longínqua...

Todas as guerras se ganham pelos exércitos que combinam os três melhores componentes da  "warfare": (i) hardware; (ii) software; (iii) humanware.

Os nossos "maiores" diziam-nos que tínhamos os melhores soldados do mundo... Certo. Mas não chega para ganhar as guerras. Os melhores do mundo cansaram-se da guerra, dizem os críticos dos nossos "maiores". Ou foi a guerra que se cansou de nós...Tanto faz.

 No fim, tem de haver sempre umas palavras de agradecimento. Nas vitórias e nas derrotas. Na vida e na morte. Sob pena da Pátria ser ingrata... A Pátria, nós, a começar pelos antigos combatentes.  

Comecemos pelos "intendentes". Obrigado pela "bianda nossa de todos os dias"...(Mas eles não nos abasteciam só de víveres, também nos forneciam os artigos de cantina, em suma os comes & bebes: forneciam-nos também combustíveis e lubrificantes, fardamento, impressos e material diverso)...

APOIO DE SERVIÇO DE INTENDÊNCIA (CECA, 2015, pp 72/74)

I. Abastecimento

(i) Víveres e artigos de cantina

As Unidades fazem os seus pedidos directamente ao Órgão de Intendência (01), que as apoiam.

Para certos artigos de cantina os pedidos são feitos à Sucursal das OGFE (Oficinas Gerais de Fardamento do Exército), em Bissau.

Os 01 requisitam à Chefia os víveres e artigos de cantina necessários à manutenção dos níveis determinados.

(ii) Combustíveis e lubrificantes

As Unidades requisitam directamente às empresas gasolineiras ou através dos Orgãos de Intendência (01).

Os 01 mantêm os níveis determinados através de requisições feitas à Chefia de Serviço, em Bissau.

A Chefia de Serviço acciona as empresas gasolineiras no sentido de fornecerem aos 01 ou às Unidades os combustíveis e lubrificantes requisitados.

(iii) Fardamento

As Unidades requisitam aos Pel Int  (Pelotões de Intendência) ou Depósito Base de Intendência (DBI), conforme forem apoiados por uns ou outros, os artigos necessários.

Os Pel Int requisitam por sua vez à Chefia os artigos indispensáveis à manutenção do nível determinado.

A Chefia acciona o DBI de acordo com o solicitado pelos Pel Int.

(iv) Impressos

As Unidades requisitam os impressos directamente ao DBI. Através dos Pel Int o DBI encaminha-os para as Unidades.

A Chefia do Serviço mantém o controlo deste material junto do DBI por forma a não haver faltas.

(v) Material diverso

Os pedidos são feitos directamente à Chefia que acciona o DBI para o efeito. Este envia o material à Unidade que fez o pedido.

Os artigos críticos são pedidos à 4a Repartição/QG que os acciona em ligação com a Chefia do Serviço.

II. Evacuação

(i) Fardamento

A evacuação dos artigos de fardamento é feita das Unidades para o Pel Int que as apoiam.

(ii) Material diverso

As evacuações são feitas directamente das Unidades para o DBI.

pag 72/73

III. Síntese da actividade operacional do Batalhão de Intendência da Guiné (CECA, 2015, pp. 488/489

(...) "O BInt foi criado com base em QO aprovado por despacho ministerial de 21Nov63 e englobou uma Companhia de Intendência, umaCompanhia de Depósito, então constituidas, e os Destacamentos d Intendência (4), então existentes em Bissau, Tite, Bula e Bafatá, este depois instalado em Bambadinca, a partir de 02Jun66, e, mais tarde, outro Pelotão instalado em Farim, a partir de OlJan67, sendo considerado uma unidade da guarnição normal.

Em OlAbr68, as funções da Companhia de Depósito passaram a ser executadas por um novo órgão, então criado, o Depósito Base de Intendência e a partir de O1Set68, o Batalhão passou a ser constituídoelas subunidades designadas por Companhia de Intendência de AlD,Companhia de Intendência de AlG, e Pelotões de Intendência, tendoainda sido instalado outro Pelotão em Cufar, a partir de OlAg073.

Nesta situação, forneceu o apoio logístico às unidades e subunidadesem serviço na Guiné, efectuou a reparação dos meios de frio, máquinas de escritório e de bobinagem, entre outros, para o que dispunhatambém de equipas itinerantes.

Ministrou também instrução de formação de especialistas de Intendência de padeiros, magarefes, caixeiros e outras. Manteve ainda as reservas de combustíveis e lubrificantes e acionou o funcionamento dos centros de fabrico de pão e de abate.

Em l40ut74, após entrega das instalações e equipamentos ao PAIGC,  Batalhão foi desactivado e extinto." (...)

__________________

Nota do editor LG:

(*) Vd. poste de 12 de novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5258: A tragédia de Cufar, sábado, dia do Diabo, 2 de Março de 1974 (António Graça de Abreu)

(...) "Os homens ardiam como tochas, gritavam, vinham direitos a mim. O inferno deve se um lugar bem mais agradável do que aquelas dezenas de metros de picada com pessoas a serem consumidas pelas chamas, o ar, o escuro da noite empestado por um horrível, um nauseabundo cheiro a carne humana queimada. Despi a minha camisa e com ela tentei apagar restos do fogo que cobria aqueles homens. Meti quatro negros no carro, dei a volta com o jipe e subi, acelerando em direcção a Cufar. Uma viatura blindada Fox (do Pel Rec Fox  8870/72) descia a picada com os faróis e as metralhadoras apontadas para nós.

"Eram os primeiros militares que acorriam à explosão dos barcos. Gritei-lhes para pararem. Ficaram espantadíssimos por encontrarem ali o alferes Abreu em tronco nu com homens todos queimados dentro do jipe. Rodeei a Fox com dificuldade – ocupava quase toda a picada, – e em segundos cheguei com os desgraçados à enfermaria de Cufar. Foram deitados em macas e regados com água. Dois grupos de combate da CCAÇ 4740/72, bem armados, desciam entretanto para o porto interior e havia mais pessoas atingidas pela gasolina a arder, a caminho. Não era mais comigo."  (...) 

Vd. também postes de:

 21 de outubro de 2011 >  Guiné 63/74 - P8933: Memória dos lugares (158): Cufar e o porto do rio Manterunga, extensão do inferno na terra : 2 de Março de 1974 (António Graça de Abreu)

17 de Maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4366: Tabanca Grande (144): João Lourenço, ex-Alf Mil, PINT 9288, Cufar (1973/74)

16 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1284: A Intendência também foi à guerra (Fernando Franco / António Baia)

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27077: Os nossos seres, saberes e lazeres (693): Excertos do "meu diário secreto, ainda inédito, escrito na China, entre 1977 e 1983" (António Graça de Abreu) - Parte XIII: Visita de um delegação militar portuguesa, chefiada pelo general da FAP., Conceição e Silva (1933-2021)




República Popular da China > Pequim > s/d (c. 1977/83) > O António Graça de Abreu
na praça Tianamen [ou Praça da Paz Celestial]


Foto (e legenda): © António Graça de Abreu (2008 ). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Grça & Camaradas da Guiné]


1. Excertos do "meu diário secreto, ainda inédito, escrito na China, entre 1977 e 1983" (António Graça de Abreu, ex-alf mil, CAOP1, Teixeira Pinto / Canchungo, Mansoa e Cufar, junho de 1972/abril de 1974; sinólogo, escritor, poeta, tradutor; tem mais dde 375 referências no blogue; texto enviado em 26 de julho de 2025, 18:12)


Pequim, 20 de Maio de 1981 > Visita de um delegação militar portuguesa

por António Graça de Abreu


Está cá uma delegação de militares portugueses. Visitam a China e uns tantos aquartelamentos modelo a convite do Exército Popular chinês. 

Entre os nossos, vem um tenente-coronel da Fábrica Militar de Braço de Prata com um dossiê na busca de contactos e negócios da China. Mais militares portugueses, no fundo das malas trazem catálogos sobre venda de armamento made in Portugal

Tenho sérias dúvidas de que se consiga vender uma só munição aos chineses que estão entre os maiores fabricantes de armas do mundo. Este convite terá talvez mais a ver com a intenção chinesa de conhecer o que se faz em Portugal e de serem eles a vender-nos armas, e não a comprar.

Hoje fui ao Hotel Pequim almoçar com os nossos oito militares. Conversa entusiasmante e inteligente, até meteu as Guerras do Ultramar, em que todos participámos, eu como alferes n
a Guiné- Bissau, 1972/74.

Fiquei sentado ao lado do general Conceição e Silva  [1933-2021], da  Força Aérea e
chefe da delegação militar portuguesa. 

Rodeando a nossa mesa redonda com nove lugares, as empregadas de mesa desdobravam-se em cuidados para nos servir. Traziam travessas de comida fragrante e colorida, rodopiavam, enchiam delicadamente os copos. Pedi uma garrafa de Maotai [ou Moutai],  a aguardente de sorgo mais famosa da China que do alto dos seus 53 graus de álcool inebria e faz flutuar qualquer simples mortal.

Alguns dos militares lusitanos deglutiam em pequenos sorvos o Maotai e bebiam com os olhos as moçoilas chinesas, entrapadas numas rígidas fardetas brancas. 

Disse ao general Conceição e Silva:

− Ah, estas mulheres são lindas! Bem vestidinhas, eram uma maravilha!

O general, que não estava interessado em roupas e adereços, respondeu de imediato: 

− Bem vestidinhas?... Bem despidinhas, meu caro amigo!.

(Revisão / fixação de texto, título, parênteses retos, negritos, links: LG)

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quinta-feira, 31 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P27075: Os nossos seres, saberes e lazeres (692): Excertos do "meu diário secreto, ainda inédito, escrito na China, entre 1977 e 1983" (António Graça de Abreu) - Parte XII: Gegen Tala, Mongólia Interior, 11 de maio de 1981





República Popular da China > Gegen Tala, Mongólia Interior > Aldeia de Xilinhot >  11 de maio de 1981 > O autor, à direita,  com uma família mongol

Foto (e legenda): © António Graça de Abreu (2025 ). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Grça & Camaradas da Guiné]


1. Excertos do "meu diário secreto, ainda inédito, escrito na China, entre 1977 e 1983" (António Graça de Abreu, ex-alf mil, CAOP1, Teixeira Pinto / Canchungo, Mansoa e Cufar, junho de 1972/abril de 1974; sinólogo, escritor, poeta, tradutor; tem mais dde 375 referências no blogue;
texto enviado em 26 de julho de 2025, 18:12)


Excertos do meu diário secreto, ainda inédito, escrito na China, entre 1977 e 1983 >  
Gegen Tala, Mongólia Interior, 11 de maio de 1981

por António Graça de Abreu

Uma semana viajando. Primeiro num Antonov velhíssimo, pouco maior do que os nossos DC 3 que conheci na Guiné, voando de Pequim para Huhote, a capital da Mongólia interior chinesa. 

Depois, de jipe, mais 250 quilómetros de estrada (?) algum alcatrão e, de seguida, por caminhos de cabras e de camelos, aproveitando-se as pistas dos leitos secos dos rios até estas paragens isoladas de Gegan Tala, a pradaria distante, já muito próxima da fronteira com a república da Mongólia. 

As terras mongóis em estado puro, a aldeia de Xilinhot onde fico,  tem iurtas de verdade e casas de adobe, existem rebanhos, camelos e cavalos, e até um pequeno mas extraordinário -- pelo seus murais e pequenos budas --, templo lamaísta tibetano-mongol. 

Fui almoçar a casa de uma família mongol, só a
filha mais velha falava mandarim e serviu de intérprete.  
Gente perdida, surreal, real, nas estepes dos confins do mundo. Não os vou esquecer imortalizados em fotografia comigo. Reparem no pormenor das galochas do rapazinho, gente pobre de uma enorme dignidade.

Escrevi:

Depois da Grande Muralha e da Manchúria,
eis a Mongólia!
Viajo no início do Verão por estradas de terra
e caminhos agrestes no leito seco de rios,
chego no fim da manhã à aldeia de Xilinhot.
As iurtas brancas
suspensas no castanho e verde do horizonte,
casas dispersas, um templo budista,
a erva ainda molhada pelo orvalho da noite,
o ar leve e fino,
silêncios cinzentos de chumbo,
a terra fresca, a pradaria imensa.

Monto um cavalo de vento
e parto à desfilada,
sem sela,
sem rédeas,
sem destino.

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Nota do editor:

Último poste da série > 26 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27056: Os nossos seres, saberes e lazeres (691): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (214): Casal de S. Bernardo, Alcainça, gratas lembranças do Filipe de Sousa – 1 (Mário Beja Santos)